Entre o consciente e o inconsciente os dias se abreviam

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Por Tania Maria Pellin

 

Para Freud, consciente e inconsciente são níveis da mente. O consciente é percebido e controlável, são nossas decisões no presente, contém nossas percepções e sentimentos, capaz de ordenar e interpretar nossas experiências. O inconsciente são impulsos, desejos memórias e traumas, é uma parte oculta, se manifestando de forma indireta como os sonhos, são atos falhos, revelando-se de forma disfarçada.

Em relação ao tempo, também temos estes dois níveis.  O tempo consciente se passa no trabalho, nos compromissos, na rotina, nos aeroportos, ninguém quer perder o voo. Todos estes atos são regrados por um relógio, neste sentido o tempo é implacável. Já o tempo inconsciente, deixamos nos levar sem pressa, sem um amanhã, queremos noites infinitas para as baladas, bares, praias, shoppings, academias. Para usufruir deste tempo que não queremos que termine, precisamos de dinheiro, ganho com o tempo consciente.

Como então conciliar estes dois tempos e não achar que ele passa rápido. Bem, neste caso a receita não existe. Mas, no final do ano, a história sempre se repete: Adeus ano velho,  feliz ano novo assim diz a canção.

Mesmo querendo que o ano continue, despedimo-nos de mais um ano, e tudo passou tão depressa que é difícil assimilar. Temos a impressão de que a Terra está girando mais rápido, e ao mesmo tempo acelerou sua rota de translação. É como se uma força invisível acelerasse o relógio.

Podemos dizer o tempo é o mesmo, as horas passam como sempre, então por que temos esta evidência? O dia continua com 24 horas, o ano com 365 dias, então, o que está acontecendo?

Não sei, poderás dizer! Ou sabemos?

A mais de dois mil anos, um Jovem Nazareno deixou registrada sua passagem neste mundo ao qual habitamos. Em seus sermões, discursos, Ele falava sobre o final dos tempos “Os dias serão abreviados” passagem do livro de Mateus 24:22.

Entendemos que abreviar é tornar algo mais curto, mais rápido. A humanidade desacredita, mas estamos vivendo estes dias.

A ciência tenta justificar, achar respostas eloquentes para tal fato. Estuda possibilidades, chega a um consenso: “A tecnologia encurtou distâncias, a globalização acelerou o processo”, e impulsionados pela tecnologia surge a interconexão, a interdependência entre nações, pessoas e, tudo acontece mais rápido. As notícias, os fatos ficam a um click de distância. Mesmo com tantas maravilhas tecnológicas na rapidez das tarefas, continuamos sem tempo, é comum se ouvir estou na correria.

Envoltos neste turbilhão de possibilidades nem percebemos que os dias se vão, e com eles o que poderíamos ter feito. O tempo não espera. Avança sem sequer nos consultar. Às vezes consciente e outras inconsciente.

O tempo está de fato passando mais rápido? Ou é uma simples ilusão? Santo Agostinho quando descreveu em suas reflexões sobre o tempo, se intriga, pois ele mesmo não consegue explicar de maneira convincente, sujere ser uma experiência da alma, para ele. Em Confissões, XI, 14[1], ele destaca que o tempo é familiar a todos nós, mas nos escapa quanto tentamos entendê-lo, Que é, pois o tempo? Se ninguém me perguntar; eu sei; porém, se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.

Diante do tempo percebemos nossa fragilidade, temos um passado, vivemos a espera de um futuro e esquecemo-nos de viver o agora, o presente, que é breve e fugaz, é o único momento em que podemos agir e amar.

O calendário da sua agenda marca o fim de um ciclo, mas o tempo, como lembrava Santo Agostinho, não é apenas aquilo que os relógios medem: ele vive em nós, na memória do passado, na atenção ao presente e na esperança do futuro que chega como uma promessa, que pulsa em nossa imaginação.

Assim, o fim de ano não é apenas uma virada de página no calendário ou uma troca de agenda. É um convite a reconhecer o valor do tempo vivido junto ou distante de quem amamos,  agradecer pelo que passou, a estar presente no agora e  projetar o futuro com sonhos, fé e esperança.

Lembre-se “o tempo nos escapa,” parece estar acelerado, mas ao mesmo também nos constitui. E talvez seja essa a beleza de celebrar o fim de um ciclo: perceber que, mesmo diante da eternidade, cada instante é precioso. Que crescemos, aprendemos e estamos dispostos a reinciciar sempre que a vida nos instigar.

Então, dias abreviados ou não, o certo que este ano de 2025 chega ao fim.

Desejo a você, um Feliz ano novo! Com muito para sorrir, dividir e amar.

 

[1] AGOSTINHO. Confissões. 2ª ed. Trad J. Oliveira Santos e A. Ambrósio De Pina. São Paulo: Abril Cultural, 1980. VI, 5, 7-8.