Troca perigosa

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Tania Maria Pellin

A chegada do smartphone revolucionou o mercado das comunicações e entretenimento, transformando hábitos e princípios que julgávamos de extrema importância para o desenvolvimento humano. E, temos a justificativa, “estamos numa nova era”, a modernidade líquida.  Modificando gostos, usos e costumes no cotidiano humano. Para Zygmunt Bauman, Sociólogo Polonês, a modernidade sólida arquitetada pela razão, foi substituída pela incerteza onde as utopias negativas ganharam força, criticamos tudo nunca estamos satisfeitos, temos de aproveitar o agora pensar apenas em si, os produtos do entretenimento são renovados a cada dia, temos medo de ser descartados, até o amor tornou-se líquido, hoje se ama amanhã não se ama mais.

Vivemos numa sociedade líquida, num mundo líquido moderno, os líquidos mudam de forma rapidamente, sob a menor pressão, para Bauman, No atual estágio “líquido” da modernidade, os líquidos são deliberadamente impedidos de se solidificarem. A temperatura elevada — ou seja, o impulso de transgredir, de substituir, de acelerar a circulação de mercadorias rentáveis — não dá ao fluxo uma oportunidade de abrandar, nem o tempo necessário para condensar e solidificar-se em formas estáveis, com uma maior expectativa de vida” (PRADO, Adriana. Zygmunt Bauman: “Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar”. Isto É Independente, 24 set. 2010).

Este é o momento de nossas vidas onde fazemos trocas incertas e perigosas, trocamos a vida pelo entretenimento, a família e os amigos pelo smartphone.

Em uma breve consulta aos livros de história, notamos que ´século XXI iniciou de maneira inversa aos demais, se antes as famílias reuniam-se ao redor da mesa, hoje, este hábito deixou de ser tradicional, trocamos a mesa por um prato no sofá em frente a televisão; a amigável conversa em família pelas trágicas notícias do jornal local, e quando conversamos, raramente o fazemos, nem olhamos nos olhos com quem estamos falando, os olhos do receptor foram trocados por uma tela fria de celular. Olhamos para a tela não para os olhos.

Desperdício, nossos olhos são lindos, viram tantas histórias, derramaram lágrimas e brilharam de felicidade, mas agora o que importa é a tela.

Atualmente, estas mudanças, influenciadas pela situação atual no Planeta, se agravou. Podemos observar nos shoppings, nas escolas, nas praças e também em nossos lares esta trágica, por assim dizer mudança. Não estamos sabendo como conduzi-la. Por onde olhamos vemos crianças, jovens, adultos e idosos com o olhar fixo na tela de um aparelho celular.

É a gente, não olha mais nos olhos. Da até vontade de dizer, ei você aí me dê um olhar aqui.

Estamos trocando, de maneira perigosa, a companhia humana por uma tela fria e sem sentimentos. Esta troca, traz um certo grau de isolamento, cada vez com mais intensidade o distanciamento vai agravando.

No cotidiano, observamos os pais presenteando os filhos com um smartphone, cedendo ao aparelho o entretenimento da criança ainda em desenvolvimento, sem a instrução de um adulto em maior parte do dia, a concessão da educação do pequeno é transferida ao celular.

Sem supervisão de um adulto acaba se tornando um veículo perigoso onde crianças e adolescentes acessam sites proibidos a idade dos mesmos.

Assim, as crianças, jovens, adultos se aventuram no ciberespaço, este, um mundo virtual, trata-se de um espaço que não existe fisicamente, e ali, neste mundo de ilusões se refugiam em busca de alguns momentos de diversão e prazer.

Muito me preocupa principalmente a situação dos nossos adolescentes, os mesmos estão tão habituados ao mundo virtual que se isolam, não sabem mais conversar, o assunto lhes foge da mente, a concentração fica comprometida. Não sei como conseguem, fazem seus deveres escolares na frente de uma televisão, com o fone de ouvidos conectado ao celular, e a tela do computador aberta em sua frente. Esta modernidade dispersa pode estar comprometida, este mundo liquido do qual fala Bauman se evapora a menor pressão.

A perigosa troca dos momentos em família por algo inexistente, a ausência de amizades sinceras e verdadeiras. A brincadeira entre amigos, a roda de conversa está ficando adormecida num passado não muito distante, para muitos nem chegou a existir.

Ouvi uma frase que me despertou para esta triste realidade, “ quando estiveres enfermo e precisares de um chá, quem irá te levar será um ser humano, e não um “ser-lular”.

Precisamos reverter nossos conceitos e em nossos lares dedicar mais atenção aos nossos filhos, todos, inclusive quem vos escreve.

Vamos trocar a modernidade líquida do mundo virtual pelo sorriso e voltarmos a contemplar a cor dos olhos, seu brilho, sua alegria.

Tania é graduada em Pedagogia pela Faculdades Integradas de Naviraí –
FINAV, em 1996, Naviraí/MS. Especialista em Psicopedagogia pelo Centro
Universitário da Grande Dourados – UNIGRAN, em 2007, Dourados/MS. Atua como
professora na Fundação Lowtons de Educação e Cultura – FUNLEC/ Bonito/MS.

 

 

 

 

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